domingo, 6 de novembro de 2016

DÊ A CÉSAR O QUE É DE CÉSAR?

Vivo em um país, onde igrejas são isentas de impostos. No entanto, cada membro contribuinte recebe no início de cada ano um recibo oficial de suas ofertas. Com esse recibo o contribuinte recebe de volta parte dos impostos descontados na folha de serviço. A igreja aqui, mesmo sendo isenta de impostos, tem a obrigação de fazer um histórico de todas entradas e saídas com os devidos recibos. O estado tem o direito de analisar o histórico quando quiser e isso até sobre um período dos últimos dez anos. Toda despesa da igreja é devidamente documentada através de recibos e uma vez por ano ocorre uma prestação de contas à comunidade. Esse sistema permite não somente ao estado, mas também ao contribuinte saber o que foi feito com o dinheiro ofertado. Sendo assim, não há como alguém usar dinheiro doado para uso pessoal, sem que isso possa vir à tona.

Se um sistema desse fosse implantado no Brasil, ninguém precisaria votar contra ou à favor da imunidade de impostos para instituições religiosas. Se o estado entra com esse pedido é porquê "nem os santos tem ao certo a medida da maldade!" A instituição Igreja infelizmente não está livre de corrupção e todo contribuinte tem o direito de receber seu recibo de doação no final de cada ano. Pastores e líderes religiosos tem a obrigação de serem transparentes no lidar com dinheiro alheio e devem prestar contas. Caso algo assim fosse implantado no Brasil, tenho certeza que o povo apoiaria a imunidade de impostos, pois assim teria a certeza de que fraudes mais cedo ou mais tarde viriam à tona.

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

O MUNDO DOS TOLOS

 E O RENASCIMENTO DA IDADE DAS TREVAS


“O futuro não é um lugar onde estamos indo, mas um lugar que estamos criando.
O caminho para ele não é encontrado, mas construído e o ato de fazê-lo 
muda tanto o realizador quanto o seu destino.”
Antoine de Saint-Exupéry

INTRODUÇAO
Após uma longa pausa volto a fazer uso desse meio para dentro da conjuntura atual brasileira externar meus pensamentos com relação ao que chamo de “crise de comunicação” entre a parte da Igreja brasileira denominada evangélica e a parte da sociedade que atualmente a vê com olhos críticos. Nesse texto, inspirado pelas obras de Bosch, traço paralelos entre passado, presente e futuro, assim como esse pintor em suas obras. Exponho nas próximas páginas meus pensamentos e minha interpretação pessoal das obras aqui apresentadas na esperança de inspirar mudanças e incentivar mais uma vez a Igreja a ouvir as críticas e buscar um verdadeiro diálogo com a nossa sociedade. Confesso que não me foi possível esconder minha própria decepção acumulada no decorrer dos últimos meses. Várias pessoas para as quais exponho minha linha de pensamento tentam me calar dizendo que falo de coisas que não entendo e com as quais não convivo, isso por viver em um outro país. Essa maneira de calar o outro que pensa diferente da massa é para mim mais um sintoma da crise à qual me refiro. Escrevo à respeito do que percebo seja através de conversas faladas ou “chattadas” com ambos os lados e muita leitura, mas também de uma visita recente ao Brasil, onde tive mais uma vez a oportunidade de sentir esse clima de desprezo em um lado e “descaso” no outro. Concordo que quem está do lado de fora tem uma outra visão, mas está visão tem também sua verdade. Se o leitor após essa longa introdução resolver conhecer meus pensamentos, peço humildemente que o faça de modo aberto.

O MUNDO DOS TOLOS 
Há 500 anos enquanto o Brasil acabara de se tornar vítima do chamado “descobrimento" e enquanto a Igreja europeia desfrutava do auge do seu poder sobre o povo, um pintor chamado Hieronymus van Akten (1450-1516), que assinava pelo pseudônimo Bosch, segundo sua cidade natal Hertogenbosch na Holanda, começa a levar para a tela sua visão do mundo de um ponto de vista totalmente pessimista. “O mundo dos tolos” seria o termo que poderia intitular sua arte.

Além da sua cidade natal, as datas de seu nascimento e morte, assim como seus quadros, tudo o que se “sabe” sobre ele é pura especulação: Bosch o membro de uma seita esotérica apocalíptica; Bosch o blasfemo; Bosch o crítico social. Pouco ou quase nada se sabe sobre esse pintor revolucionário. Apesar de pintar motivos religiosos, seus quadros nunca foram encomendados por uma igreja ou sequer ocuparam lugar nas paredes de uma.

Sua obra é mística. Pássaros e insetos são demônios e onde esses aparecem ali percorre o mal a céu aberto. Mendigos, aleijados e tolos percorrem as ruelas e inundam suas telas e, ao invés de despertarem compaixão no observador, despertam medo e provocam calafrio. Bosch é a inspiração, sim, o pai, de figuras de filmes de Science fiction como Star Wars ou Star Treck. Suas figuras são mutantes, são algo entre animais e seres humanos, elas engolem e maltratam mulheres e homens, espalhando horror por onde quer que passem.


                A tentação de santo Antônio. São Paulo                                                                             
                                                                                              Mendigos. Áustria  

No entanto, o que mais impressiona em seus quadros não é tanto a morbidez de seus personagens, mas sim a tolice, a leviandade, a falta de caráter e a indiferença dos chamados "Santos Representantes do Altíssimo" na terra que parecem viver sem Deus no mundo, desfrutando desenfreadamente dos prazeres e enganos que do púlpito condenam. Nas suas obras, Deus, o Todo Poderoso, se mostra de pés e mãos atadas diante da tolice de seus “enviados” e “representantes”, dos horrores do seu mundo, onde o diabo anda solto e os chamados "Santos" o ignoram, colaborando cegamente na atuação do mal. Somente o fim de todas as coisas parece estar seguramente sob o domínio do Altíssimo. A condição humana é marcada de paixões e pecados, de enganos e trapaças, de erros e suas consequências, das quais ninguém parece aprender absolutamente nada. O rumo do mundo é seu fim e cego vive o homem sem perceber que tudo que ele planta um dia colherá.

Bosch e suas obras me fascinaram desde meu primeiro encontro com as mesmas, há 20 anos. Neste ano completam-se 500 anos de sua morte e, em sua homenagem, sua obra quase completa, foi reunida primeiro na sua cidade natal e até 11 de setembro no museu de Prado, em Madrid na Espanha. Bosch é, para muitos, um louco que em seus devaneios e em sua luta contra seus próprios demônios, transporta seu delírio para a tela. Ao visitar recentemente uma exposição em sua homenagem e mais uma vez analisar meus livros com fotos de suas obras, cheguei a uma conclusão pessoal.

Sou teólogo, pastor e crítico voraz da Igreja da qual sou um membro ativo. Não somente na pregação da mensagem de amor de Jesus Cristo, mas também no esforço de ganhar pessoas para a mesma fé que me abrem os olhos para Deus e, quem diria, para o mundo. Como tal me pego traçando paralelos  entre os quadros de Bosch e a minha observação pessoal da Igreja hoje. Sendo assim, vejo o pintor holandês como um profundo conhecedor do ser chamado humano. Sendo essa uma verdade em sua obra, isso significaria que o homem não muda, que gente é gente, seja em qualquer parte da terra ou em qualquer época da sua existência e que “nem os Santos, têm ao certo a medida da maldade” [1].

Uma coisa é clara, a interpretação de suas obras está intrinsecamente ligada à cultura e a fatos específicos da época onde ele viveu. Ainda que a chave das mensagens deixadas por Bosch, em forma ilustrada, para sua geração e outras futuras tenham sido perdidas no passado, resta uma grande evidência sobre o que poderia ter levado Bosch a insistir, levando para tela motivos religiosos mórbidos que ninguém penduraria na sua sala de estar.

No ano de 1494, o doutor em teologia e poeta Sebastian Brant (1471-1528) publica em Basel o livro “O Navio dos Tolos", que caricatura em 7000 rimas, baseadas na moral bíblica, os abusos, fraquezas e tolos caminhos do homem. Para o poeta, a tolice é sinônimo de um comportamento contra a razão, que leva pessoas e a humanidade inteira para a perdição.

No museu de Louvre em Paris, Bosch demonstra sua versão pessoal dos versos de Brant. "O Barco dos Tolos" de Bosch apresenta os “representantes do Altíssimo” como personagens centrais na chamada loucura do mundo. Um padre e uma freira assentados no centro de um barco com outros oito personagens. Entre os dois "Santos" há um pão que nos lembra uma hóstia pendurada em uma linha. Os dois, ao som de uma guitarra e sons sem sentido, saídos da boca de bêbados, tentam juntamente com dois outros personagens, tanto bem humorados quanto embriagados, morder o petisco sem o auxílio das mãos. O resultado, como toda criança sabe, é que seus lábios se tocarão. Tabus são quebrados. Diante dos olhos do observador da época isso seria um escândalo. A tolice se encontra em todos os lados da tela. Garrafas vazias serão reenchidas. Um barril de vinho num canto, uma garrafa semi-afogada no outro e mais uma mulher que, entre homens, briga com um dos tolos que tenta esconder a preciosa bebida. Um tolo desfruta do seu vinho, em um cálice, assentado em um galho de uma árvore. Um outro sobe no mastro do barco com uma faca para cortar um frango assado pendurado no topo do mesmo.

O barco dos tolos. Paris

Enquanto a loucura geral corre seu rumo peculiar, duas figuras invisíveis para os olhos dos que deveriam ver, nadam ao lado do barco. Um deles com uma travessa na mão, mas ambos mendigando o pão. A hóstia, a flutuar no meio do barco, é somente o início da brincadeira. O próximo desafio já se encontra presente: cerejas deverão ser abocanhadas no ar. Aqui sim, os lábios santos e profanos se encontrarão sem obstáculo, quebrando todo tabu sexual, moral e religioso. No topo do mastro, acima da ave assada, uma bandeira com uma lua crescente, símbolo do reino osmânico, e, acima dela, no topo da árvore, uma coruja. Uma ave! O mal se encontra por todo lado.

Em 1529 o reino osmânico atinge seu auge, apenas 13 anos após a morte de Bosch. Por isso acho necessário vermos, ouvirmos e comentarmos. Os turcos se encontravam diante dos portões de Viena. No caminho até ali, nação após nação abandonou o cristianismo, se rendendo ao islamismo e permanecendo até hoje fiel ao mesmo. Moral da história: enquanto o mundo se atola cada vez mais na desgraça e o fim se aproxima, os “Santos” brincam.
  

O carro de feno. Madrid.
Em uma outra obra de Bosch, um quadro de altar que nunca ocupou um, mostra três visões distintas ligadas por uma dobradiça. Um olhar no passado, presente e futuro da humanidade. O início no Éden da inocência humana, vivida em relacionamento íntimo com o criador; o mundo atual contemporâneo da geração boschiana e o fim de todas as coisas para o qual caminha a humanidade. No centro da nossa história, o carro de feno - símbolo da futilidade passageira da existência humana. A vida é um sopro e ela finda tão rapidamente como feno ao fogo. A parte direita do quadro aguarda o esquadrão do horror, as bizarras figuras de Bosch, a chegada do homem ao fim de todas as coisas. No mundo tudo muda, tudo se transforma e nossas obras vêem à luz.

O extrator de pedras. Madrid

Em outra obra, Bosch retrata o tratamento de um médico charlatão. Este promete tirar a tolice de um homem ao operar “pedras” da sua cabeça. Tudo isso ocorre diante dos olhos de um padre e uma nona, com uma bíblia na cabeça. O que dizer do “Assaltante de carteiras” ou do “Jardim dos prazeres”? Ao invés de comentá-las, prefiro formular paralelos entre o mundo de Bosch e o nosso atual e no centro dessa comparação, a Igreja.

O assaltante de carteiras. Saint-Germain-en-Laye

O RENASCIMENTO DA IDADE DAS TREVAS
Vendo e analisando, mesmo à distância, a situação de parte da Igreja brasileira evangélica, no seu esforço incansável de se tornar mais e mais desprezível, sem gosto e sem brilho, me vejo traçando paralelos entre a mesma e a visão de Bosch da tolice dos religiosos de sua época. Igreja se torna escândalo, luz se torna trevas. Os que falavam da dívida do pecado humano perdem a credibilidade diante dos olhos daqueles sobre quem diziam andar em trevas. A medida da maldade no meio evangélico chegou ao seu auge. Se cada geração de cristãos é responsável por ser luz para a geração da qual fazem parte, como é pregado em inúmeros púlpitos, então vejo renascer a Idade das Trevas e solto meu grito desesperado urrando: “O que será dessa geração? Deus tenha misericórdia!!!”

Enquanto o mundo ao nosso redor desaba, enquanto a miséria e o desespero se espalha pelas ruas de nossas cidades, enquanto o mundo grita por ajuda, parte da igreja busca por poder, pensando ser esse o caminho. Engano? Ao meu ver, sim! A época onde igrejas evangélicas eram oprimidas pela igreja católica passou. A igreja evangélica brasileira cresceu tanto que pela primeira vez na sua história ela é capaz de eleger um presidente. Creio que aqui se encontra a brecha para o tentador dentro de cada um de nós, pois essa ideia subiu à cabeça de muitos líderes. A igreja abandonou as coisas para as quais foi chamada e começou a perseguir a ideia de eleger políticos. Consequentemente, abandonamos a causa dos pobres e das viúvas e o fazer o bem se tornou sinônimo de ocupar cargos políticos. Como resultado dessa busca pelo poder, temos além dos escândalos envolvendo a chamada bancada evangélica no congresso, a divisão entre as igrejas evangélicas e o fato da definição atual de quem é ou não é verdadeiro “crente” depender da posição política do mesmo. Enquanto ocupamos nosso lugar no "Navio dos Tolos" cegados pela fome do poder, Deus "perdeu" suas testemunhas. Deus "caiu" nas pesquisas e perdeu em popularidade, seu nome é intrinsecamente ligado a pessoas tão corruptas quanto outros, que deixaram de amar para reinar e assim atamos as mãos de Deus no mundo e nos tornamos motivos de escândalo. Pena que caímos nessa cilada. O engano invadiu a igreja e abandonamos as coisas do reino para nos envolvermos com coisas desse mundo. Enquanto brincamos de eleger políticos, nosso mundo se encontra na maior crise de todos os tempos e o nosso fim se aproxima. Os sinais se encontram por toda parte, assim como os símbolos do Reino osmânico nos quadros de Bosch. Mas, como os “Santos” retratados por Bosch, colocamos na boca “um doce com gosto de fel"[2] e “dançando sem roupas”[3] expomos nossa tolice e escandalizamos o mundo. Será esse o nosso fim, como foi o fim de vários países cristãos na época de Bosch?

A cegueira é tamanha que assume dimensões apocalípticas. A noiva dorme. Seus olhos se fecharam para o mundo ao seu redor. Seu coração perdeu a compaixão e busca poder e nome ao invés de gente. E assim caminham evangélicos assentados sobre um carro de feno e a longos passos seguindo em frente à perdição que tanto pregavam. Bosch descreve hoje, mais do que nunca, o estado da igreja, não somente no Brasil, mas em qualquer lugar do mundo, onde a Glória de Deus e a causa dos pobres e oprimidos é trocada pela busca pelo poder.

Onde tudo começou? Devagar e lentamente, passo a passo, degrau após degrau, foram descendo e descendo, trocando a glória de Deus pela glória dos seus próprios nomes, tornando-se arrogantes, incorrigíveis e espalhando o engano. Assim, sem perceberem, foram entregues aos seus próprios erros e perderam a visão. Se dizendo sábios, tornaram-se tolos, motivos de escândalo, pedra de tropeço, sujando o nome que está acima de todos os nomes, fechando as portas do céu, escancarando e expandindo o inferno e vivendo sem Deus no mundo. Sal? Luz? Amor? Onde?

CONCLUSAO
As imagens e cenas gritantes nos quadros de Bosch são mais que uma crítica, são um apelo mudo à classe religiosa regente de sua época. Tudo que ele queria era ser ouvido. Hoje, o fenômeno atual da massiva crítica da sociedade contra a parte evangélica da mesma, fala tão alto quanto as imagens boschianas. A situação, a qual chegamos, é grave e o que está em jogo não é nada mais e nada menos que o futuro da Igreja brasileira em uma sociedade que mais do que nunca precisa da mesma. Isso como Igreja e não como poder político. Como Antoine de Saint-Exupéry escreveu: "Nós somos responsáveis pelo futuro que teremos". Se a Igreja evangélica hoje parasse para ouvir com humildade, sem justificar-se ou relutar, como as pessoas ao seu redor os veem, haveria esperança de retornar ao caminho e assim crescer aos olhos das mesmas e, quem sabe, ser em um futuro próximo novamente luz. Infelizmente tenho perdido essa esperança cada dia mais. Que Deus tenha misericórdia de nós, a igreja, que se tornou tola, e do mundo pelo qual ELE ofertou seu filho, demonstrando sua essência, o seu amor.




[1] Renato Russo
[2] Marcos Almeida
[3] idem

quarta-feira, 1 de abril de 2015

O DESAFIO DA IGREJA / O DESAFIO IGREJA

Sempre amei mudança! Na minha infância mudamos de casa várias e várias vezes. Adorava ver os móveis sendo carregados e na noite antes da tão ansiosa mudança não dormia de tanto pensar como seria o dia a dia no novo lar. Tudo mudava. Os cômodos, a ordem das camas e móveis, a rua era outra, os vizinhos, o caminho para escola e trabalho. No entanto minha família, nosso modo de pensar e agir continuava como sempre. Mais tarde percebi que o que tanto esperava nas noites antes da mudança não era uma nova casa, mas sim uma mudança no nosso jeito de pensar e agir.



Em 1994 me mudei para a Alemanha. Nesses 20 anos tudo mudou. Hoje em dia não apenas vejo diariamente mendigos nas ruas da minha cidade e pobreza, um número maior de pessoas com sérios problemas psicológicos e criminalidade, mas também e principalmente um outro modo de pensar e agir, novos valores e perguntas,  anseios e metas. Tudo mudou. O mundo ao meu redor não é o mesmo de quando cheguei por aqui. E a Igreja?

Muitas vezes penso que a Igreja é como minha família na minha infância, olhando sempre a casa limpa e arrumada. A direção do nosso olhar é decisiva! Olhar para dentro é fácil. Nossos templos continuam sendo reformados cores modernas revistam as paredes das salas dos grupos, cadeiras mais confortáveis ocupam lugar no local, onde nos reunimos para termos comunhão e lermos a bíblia juntos, cantos modernos e novos elementos ocupam lugar nos cultos. Desse ponto de vista muitas coisas mudaram e assim nos sentimos bem nas nossas igrejas. Se olharmos no entanto na outra direção, para o mundo lá fora será impossível não dar razão para quem pensa que somos, como disse Cazuza se referindo a chamada elite brasileira, „um museu de grandes novidades“. O cantor tinha razão, o tempo não para, somos nós quem paramos no tempo. Muitas vezes penso o mesmo sobre a Igreja europeia.

Nos povoados da Idade Média só havia um açougueiro e uma igreja. A profissão  a seguir era a profissão do pai, as pessoas nasciam e morriam na mesma cidade, sem jamais por um pé fora dos limites da mesma. Como vivemos hoje? Hoje em dia se vou comprar Ketchupem um certo supermercado posso escolher não somente entre 20 marcas diferentes, mas também entre várias cores. Informação e educação são bens acessíveis a todos. Antigamente eram as coisas que não podíamos explicar o que nos levava a buscarmos ajuda e explicação em uma Igreja ou religião. Hoje em dia através da evolução científica e tecnológica, da psicologia moderna, da flexibilidade social, onde distância não mais existe o Pluralismo ocupou o mundo, respostas existem aos montes! Coisas, pessoas, filosofia, valores, cultura. Tudo se mistura. Cristianismo é somente uma dentre muitas outras opções. A mesma coisa ocorre com as escolhas morais. Moral não é mais absoluta. Se valores fixos não existem mais na sociedade europeia atual, o termo „verdade“, que desde o despertar da filosofia grega é discutido, é para o cidadão secular europeu hoje, mais do que nunca, „uma ilusão!“ Hoje em dia duvidar é quase saber! Opinião é algo que é „formada“ em um processo de discussão. Verdade é encontrada no todo da narrativa, no enredo de muitos. Ela precisa ser virada e revirada passando por caminhos de incerteza até gerar tolerância. Nos tempos pós modernos tudo é relativo.

O que a Igreja veria ao olhar para o nosso mundo moderno com sua verdade relativa? Seria possivel  notar que, para muitos, nós não passamos de uma opinião a mais, que nossa verdade é somente nossa é que como instituição, perdemos em credibilidade por falta de diálogo com a sociedade. Precisamos decidir se vamos continuar polindo nosso ego, ou se buscamos o diálogo com o mundo lá fora. O que vejo hoje são igrejas que permanecem vazias, ou são vendidas. Encontrar jovens nos cultos é uma raridade. Prédios de igrejas são vendidos ou se transformam em restaurantes, discotecas ou até em mesquita.

No confronto com a sociedade atual observo três mecanismos de defesa que desenvolvemos: a fuga em uma posição fundamentalista (Igrejas neopentecostais); reforço do tradicionalismo (Igreja Católica) ou no liberalismo (Igreja Luterana). Enquanto o tradicionalismo procura preservar valores e verdades existentes, o fundamentalismo se concentra na defensa ofensiva de valores e verdades perdidas e o liberalismo cai no "pode tudo". Observando no entanto as pessoas ao meu redor, percebo que o pluralismo de ideias, impulsos e opções gera no fundo insegurança. As pessoas que conheço e com quem convivo (as mesmas não são poucas) anseiam por relacionamentos profundos, buscam aceitação e segurança. A vida se tornou complicada, o tempo escorre pelos dedos e é difícil manter o controle sobre tudo. Um sentido de viver é hoje, talvez mais do nunca, a busca maior de uma geração sem certezas.

O que a Igreja poderia fazer? Ao invés de continuarmos entre nós zelando pelo que sobrou; partir para a ofensiva combatendo o que chamamos de mundo; ou liberando tudo, poderíamos buscar o diálogo. Para isso precisamos abandonar nossa área de conforto, começar a respeitar a opinião do outro, ouvir as críticas e trocar ideias, retendo o que é bom e esperando que Deus aja não tanto através das nossas palavras, mas sim através do nosso modo de viver e agir. Nós nos acostumamos com a posição de Mestres fazendo do nosso próximo um aluno. Claro que Jesus Cristo morreu e ressuscitou para nos mostrar o amor do Pai que nos leva a um relacionamento com Deus que quer transformar nossas vidas! Deus, a Bíblia, a vida e o ser humano no entanto permanecem em muitas áreas insondáveis e assim impossíveis de serem entendidas com a nossa razão. Deus tem a resposta para todas as coisas, nós ainda não. O melhor que temos para oferecer é essa comunhão com Deus que é amor que conhece todas as verdades: a minha, do meu próximo e a dELE mesmo. Se a Igreja europeia não sair da ofensiva ou defensiva e passar a buscar o diálogo com a sociedade, em pouco mais de 40 anos cristão será uma raridade. Algumas igrejas ainda crescem, isso devido mais aos filhos dos atuais fies do que de pessoas que se convertem. Fundamentalismo é motivo de escândalo, a segurança do tradicionalismo é traidora e o liberalismo é a morte da Igreja.

Minha família hoje é outra. Hoje como adulto vejo que não os tetos debaixo dos quais moramos nos levaram a mudar, mas sim a vida com seus desafios, a disposição de aprender com o outro e o diálogo foram o motivo da nossa mudança. É hora da Igreja fazer o mesmo.



Ps. Se você quiser, pode ajudar a divulgar esse blog ao "me curtir" no facebook - Cristianismo é simples - blog 

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sexta-feira, 27 de março de 2015

SOBRE A QUEDA DO AVIAO DA GERMANWINGS

Todos nós ficamos sem palavras ao ouvirmos sobre a queda do avião da companhia Germanwings. Sem fala nos tornamos ao sermos informados de que o acidente foi programado pelo copiloto. Tantas pessoas, tantas crianças das quais a vida, a história e todo um sonho e planos para um futuro foram postos um fim de um segundo para o outro. Uma morte sem sentido.

O que nos resta além de uma busca sem sentido pelo motivo do ator desse ato brutal, sim do sentido dessa tragédia?

Em meio à minha própria falta de palavras sou grato por um consolo. Ainda que eu não possa responder às perguntas das pessoas desesperadas que nesse momento se voltam a nós cristãos e a Igreja perguntando onde estava Deus nesse momento e por que ele não impediu o acidente, eu ainda posso olhar e apontar para Jesus.
Se alguém nessa situação de trevas pode realmente consolar, então somente ele. Sim, Jesus, que na cruz sentiu na própria pele o mesmo abandono, sim a mesma ausência de Deus, que as vítimas desse ato brutal. No seu desespero, pouco antes da sua morte ele grita “meu pai, meu pai por quê me abandonastes?” 

Somente ele pode entender e sentir essa terrível ausência de Deus, esse sentimento de abandono total das vítimas e dos parentes e amigos das mesmas.
Que bom que nenhum de nós não está condenado a não poder fazer nada diante desse terrível situação. Nós ainda temos a oração! Isso ainda que nos faltem palavras! Nós podemos orar para Jesus mesmo no nosso silêncio para que ele visite essas pessoas e as dê o consolo e a paz que elas tanto necessitam.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

SE JESUS DISSE que o Reino de Deus não é desse mundo e os Felicianos da vida dizem que é, EM QUEM VOCÊ ACREDITA?


O movimento político no final dos anos 80 nas igrejas evangélicas marcam o início dos anos de trevas dos quais estamos colhendo os frutos hoje.

Tudo começou com um movimento de oração pela nossa nação. Nessa época o Brasil saiu para as ruas e gritava por eleições diretas para presidência como caminho para democracia. A igreja evangélica resolveu iniciar um movimento nacional de oração pelo Brasil e por nossos políticos. Interessante é que o Versículo bíblico que acompanhou esse movimento acabou sendo esquecido. “Se o meu povo, que se chama pelo meu nome se humilhar, me buscar, confessar seus pecados e buscar minha face, eu ouvirei dos céus, perdoarei os seus pecado e sararei sua terra.” (2. Crônicas 7,14)

Após essas semanas de oração ocorreram em todo Brasil a primeira Marcha para Jesus. A igreja evangélica, que até então era tímida, mostrou não somente sua cara, mas também seu potencial e o Brasil percebeu que os chamados Crentes já não eram menoria. Ao invés da humildade, tão clamada no versículo bíblico, o sucesso subiu pra cabeça de muitos e o orgulho tomou posse de líderes evangélicos. Oportunistas viram sua chance de serem eleitos a postos políticos. Água e óleo se misturaram, o que era tabu para Jesus e seus discípulos se tornou alvo de pastores e líderes religiosos. A igreja foi reduzida a massa, o povo cegado com doutrinas legalistas e heresias sem fim. Manipulação e poder ocuparam muitos púlpitos. Indulgências começaram a ser cobradas e ao mesmo tempo o céu foi prometido na terra. Jesus virou Silvio Santos que realiza o sonho dos pobres com o carnê do Baú e o Reino que não era desse mundo mudou de Nacionalidade.

Se Deus é Brasileiro então aqui e agora! Esse foi o grito das novas igrejas “evangélicas” que surgiram como erva daninha em cada esquina. O fermento dos fariseus se espalhou pela nação e o resultado vemos hoje: A igreja se tornou escândalo!!! Quem não percebe isso é cego, surdo ou deveria consultar um psicólogo. O sacro se tornou profano e o mundo que era combatido e condenado de cima dos púlpitos e praças invadiu o lugar sagrado. Somos cegos, pobres e nus! Abra os seus olhos, contemple nossa nudez como Igreja evangélica Brasileira. Vamos olhar no espelho e nos vestir novamente!


A história nos adverte, mas por falar em história, como aprender dos erros do passado ou seguir os conselhos de sábios escritores cristãos se estudo, se preparo por respeito às chamadas ovelhas, por causa da responsabilidade da tarefa não é mais necessário? Teologia é perda de tempo, pois quem capacita é Deus, dizem os sábios das igrejas neopetencostais brasileiras e assim caminha a evangelidade! Nada é impossível para o jeitinho brasileiro! Que pena!!!

Retornando à lição da história, quando Constatin no Século IV declarou o Cristianismo como religião oficial do Império Romano, as igrejas ficaram da noite para o dia lotadas de novos fies. Nesse momento histórico muitos fieis se revoltaram ao ver que os mesmos criminosos, ladroes, trapaceiros e perversos que ocupavam as ruas, se encontravam nos domingos nos cultos, no dia chamado dominus day, dia do Senhor, e que mesmo no lugar chamado Sagrado, na Igreja, na Casa de Deus eles permaneciam na vidinha de sempre. Muitos desses Fieis deixaram a Igreja e foram para o deserto como forma de protesto e buscaram o Deus que não mais encontravam na Igreja. Muitos se uniram e formaram comunidades e começaram a viver em celibato e pobreza. Assim nasceram os Franciscanos e outras Irmandades.

Se abrirmos os olhos veremos que dentre os corruptos que condenamos no Congresso Nacional, nas Assembléias da vida e nas Prefeituras das nossas cidades, estão muitos Evangélicos! O rótulo não santifica o coração! Crentes estão roubando, mentindo, enganando fieis. As igrejas estão cheias de oportunistas que prometem um Reino que não é desse mundo, pois o que eles mesmo querem é poder. Religião e política não se misturam. Isso é tabu! Um pastor evangélico como líder do comitê de direitos humanos é um escândalo! Isso é abuso de poder!!! Se Deus respeita a liberdade de escolha do ser humano que ELE criou, alvo do seu amor e motivo do sacrifício de Jesus Cristo na cruz, por que não respeitamos esse livre arbítrio? Por que impor nossos valores e nossas convicçoes a uma sociedade livre? A época das Cruzadas já passou e ninguém duvida mais que as mesmas foi um erro. Um político é eleito para representar o Povo e não uma denominação ou religião. A base da Democracia é o povo, tudo que passar disso é DITATURA! A Igreja brasileira está às portas de fundar um Estado Evangélico, o que condenamos nos países mulçumanos estamos prestes a fundar! ACORDA IGREJA!!! Eu tenho orgulho de ser Brasileiro, mas me envergonho de ser Evangélico!

Se um Gay quer ser Gay é problema ou melhor é escolha dele! Quem somos nós para proibir ou condenar? Se queremos ser padrão, então vamos nos tornar padrão no amor, na integridade, no respeito ao próximo e às suas escolhas. Vamos  retornar ao nosso lugar de oração pelo Brasil e pelas pessoas que sofrem nesse mundo. O apóstolo Paulo (o da Bíblia e não um dos novos nesse modismo evangélico nojento atual) escreve na carta à Timoteo no capítulo 2 que devemos orar pelas autoridades para desfrutarmos de uma vida em paz. Ele escreve que devemos ORAR e não nos CANDIDATAR a cargos políticos, pois para Paulo isso era tabu e a função da Igreja uma outra! Uma coisa é uma coisa, outra coisa é OUTRA coisa!

O Reino de Deus, que é como Jesus disse oculto e será revelado, é um Reino do coração. Nele experimentamos o amor, a paz e a presença de Deus. O coração do homem é o local que deve ser moldado pelo Espírito de Deus para que Deus, sua presença em nós, se torne visível pelo modo que vivemos e convivemos com as pessoas ao nosso redor. Deus não precisa de políticos evangélicos para fundar esse Reino, pois essa nunca foi sua intenção. Os Felicianos da vida estão errados. Seus lugares são nas igrejas, de joelho em oração por si mesmo, pelos pobres e oprimidos, pelo Brasil e pela igreja, seja ela evangélica ou católica, para que o verdadeiro Reino de Deus seja revelado. Tudo que passa disso é engano!